segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ciclos em mim

(...)

O medo me afronta
em grandes goles
esporádicos.
Medo de perder,
soltar as rédeas
da vida.
Vejo-me diante
de escolhas
que só o tempo
revelará,
caminhos
que se desfazem
em cores ocultas.

(...)

Que a sombra
de minh'alma
repouse no alento
do estado vazio
e rejubilize
na hora exata.
Além de mim
há coisas
que não param.
A vida se desagrega
e se refaz
ao final de cada ciclo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Eu, monstrinho

Há histórias, verídicas claro, que tenciono adorná-las com palavras escritas, porém passado o frescor momentâneo, a memória não é capaz de reavivá-las. Disposta tal condição, apresso-me a delatar o que me veio a acontecer por esses dias.
Foi um daqueles instantes a que chamam de lapso e que depois de ocorrido, a mente nos presenteia com mil e uma possibilidades, pensamentos. Primeiramente, me anteponho a esclarecer que não sou de dramas, mas se tratando de semelhante experiência é necessário um mínimo rabisco.
Dizem as línguas interioranas que o dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, antecipa a previsão do tempo para o Natal. Se neste dia chover, no Natal o céu estará limpo e vice-versa. Sendo assim, espero uma feliz festa natalina, pois foi o dia 8 que comportou o meu lapso.
Naquele meio-dia, eu não sonhava com os estragos que uma frigideira pode comportar nem tampouco recordava a desavença da água com a gordura. Não sou leiga se tratando de tal rixa, prefiro concordar que houve um breve descuido de minha parte. Ao ver aquela pobre frigideira e suas crias sendo queimadas não hesitei em ir socorrê-las. Desliguei a boca do fogão. Traiçoeiro fogo, verdadeiras labaredas surgiram diante dos meus olhos. O que fazer? Ali eu estava entre o fogão e o fogo tendo a pia do outro lado.
Foi receio, medo. O medo de ver as chamas se espalharem pelas outras panelas, atingir os panos e se tornar um incêndio que me fez arremessar a frigideira até a pia e ademais: abrir a torneira. Fraco pensamento dentro de um instante, impossível saber quanto tempo transcorreu naquele momento.
Já passados alguns dias, sinto em minha pele como se os pingos de gordura ainda estivessem quentes. Decerto que quando isto aconteceu não senti nada, nada mesmo, nem ardência nem dor. Eram os móveis da cozinha que me preocupavam. O armário fora atingido e todo o ambiente se envolveu de fumaça. Apenas as vozes confusas dos meus pais, que surgiram assustados, me fizeram pensar em mim mesma. Minutos depois, afrontei o espelho e vi um rosto, um braço e um pescoço condensados em vermelho. Noutro dia, acordei monstrinho pintado com bolhinhas vermelhas. Mas graças ao poder divino, não foi grave, somente a pele foi atingida, as bolhas não ardem e logo vão cicatrizar. Amanhã deixarei de ser monstrinho enquanto a vida continua frágil.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Sob o véu da Intolerância

No Brasil, é costume dizer que futebol, religião e política não se discutem, mas frequentemente estes temas norteiam alguns debates na sociedade. Dentre eles, a religião é o que a neutralidade prevalece em maior escala. As pessoas possuem sua religião ou opiniões acerca desse assunto, porém se recusam ao diálogo sobre o tema.
Justamente a falta de diálogo alimentada pelo etnocentrismo vem construindo atitudes de intolerância religiosa no decorrer da história da humanidade. (...) Tratando-se do Cristianismo e do Judaísmo, estas religiões desencadearam momentos de ódio irracional e intolerância.
Após quase 2 mil anos de conflitos, a reaproximação de judeus e cristãos somente foi iniciada com o Concílio Vaticano II(...). Este Concílio estabeleceu-se como ponto inicial de uma nova fase de diálogo e relações entre a Igreja Católica e a comunidade Religiosa Judaica. Mesmo referindo-se especifiamente ao Judaísmo, o Concílio expressou um ponto fundamental para o respeito às diversas manifestações religiosas; em vez de ressaltar as diferenças entre o Cristianismo e o Judaísmo, ele recordou o vínculo espiritual entre elas e que está espiritualmente ligado à descendência de Abraão.
O Concílio Vaticano II foi um marco e sendo a religião o universo mais prural da condição humana, é essencial a pesquisa na área das crenças religiosas. Em meio a diversidade, certamente, há associações que levam não apenas às diferenças entre elas, como também às semelhaças. Semelhanças que geralmente ficam ofuscadas por uma camada de intolerância. No caso do Judaísmo e do Cristianismo, elas tiveram a mesma origem, mas em algum momento da história se separaram e ainda assim, acreditam no mesmo Deus ou D-us, baseiam-se no mesmo livro – a Bíblia (que os judeus chamam de "Tenak" e os cristãos de "Antigo Testamento"), entre outros aspectos.
Na verdade, as diferenças religiosas em si não provocam conflitos. São as interpretações e as significações a que as diferenças são submetidas que geram atos de intolerância religiosa. Religiões, que talvez não possuam mesma origem podem mostrar-se semelhantes em valores e crenças, mudando-se apenas as formas de manifestação. Para tanto, é necessário pesquisar, conhecer e respeitar.
Que Deus, Alah, Jeová, Xangô, Maomé, Buda, Krishna ou Tupã abençoe.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um pouco de saudosismo

Hoje Salvador me fez lembrar minha cidade: Miguel Calmon. Choveu pela manhã e eu me banhei na chuva como há muito tempo não fazia. Foi sem querer, decerto, mas uma voz interior me fez deixar molhar o corpo livremente, sem pudor.
Agora, a tarde vem chegando e no céu nuvens pesadas se preparam, a qualquer hora vão se desfazer em milhões de gotas.
Esses dias, percebi que nessa época do ano, algumas árvores exalam um cheiro forte. É o cheiro do meu Natal. Todos os anos eu o senti sem nem mesmo notá-lo. Lá ele estava, e dessa vez as árvores resolveram me presentear. Deram-me com o cheiro a sensação de paz.
Ano acabando, chuvas de verão, férias apontando, família, Natal, Paz, Amor. Calmon, Miguel Calmon.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Breve fuga

Há uma gota de mim
em cada palavra
mal proferida.
Desejos ocultos
que me vem
e me trazem
a dor
de serem revelados.
Onde estará
essa sede
ou medo?
Em torno de mim
escondo
a parte que
não me cabe.
E a ausência
do que não
se chorou,
à meia-luz
se traduz.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Os Zumbis do sistema

Hoje eu acordei com uma imensa saudade. O rádio toca, são músicas marcantes que me fazem lembrar pessoas. E lá fora, a chuva me impede de sair. Sensação de dor que nenhum tipo de remédio pode curar, só o passar do tempo.
Há um período da vida em que ficamos cegos. Vamos como zumbis em direção ao sistema. Todos querem fazer, ser, viver o mesmo, o mesmo que aqueles ali da frente. Talvez seja falta de maturidade. Ah, e ainda há outros zumbis sem saber que os são. Mas ninguém é culpado, eu também caí nessa. E não me arrependo, seria muita ingratidão da minha parte. Esperei tanto, mas a sensação de vazio às vezes me arrebata, como agora. Poderia ter feito mais, ou melhor, ter feito menos e aproveitado mais. Não é clichê, é a pura verdade.
Porém, é chegada a hora, preciso de argumentação para dar consistência ao meu dizer. Deparo-me com essa imposição mesmo preferindo as entrelinhas. Sendo assim, desvelo o motivo da minha inquietação.
Querido leitor, estamos sempre seguindo um sistema. Como diriam os funcionalistas, todo sistema é formado por partes interligadas que desempenham sua função e blá, blá, blá. Logo cedo, quando mal aprendemos a falar, nos jogam na escola. Pronto, já fomos coagidos e permaneceremos assim por longos anos de nossa vida. É o sistema educacional, metódico, teórico, injusto e cruel. Ensinam-nos fórmulas, regras, mas nos desencorajam e ofuscam nossa liberdade. E o ápice da crueldade é atingido às vésperas do Vestibular. Se não bastar, assistimos depois os ricos invadirem as faculdades públicas. Nesse momento, os pobres estudantes já viraram zumbis.
Apenas quando tudo passa, olhamos para trás e surge esse vazio. Os amigos tomaram outro rumo, a chuva passou, o sol apareceu e é minha hora de partir.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Sangue Frio

Ultimamente, eu vinha reclamando muito do meu curso. Jornalismo é imprevisível, cansativo, não tem rotina, me transpõe para lugares diversos e me faz passar por tantas situações malucas. Esse começo de semestre foi difícil. Faltou grana, eu mal conseguia parar em casa, enfim, quase não me diverti nem cumpri todos os meus horários. Cheguei a pensar em fazer algo mais estável, por que não algum curso da área de saúde?
Mas, sinceramente, hoje mesmo esqueci de vez essa idéia. É preciso pensar muito antes de sonhar em ser médico, enfermeiro ou seguir outra profissão que precise lidar com a vida das pessoas. Tudo bem que pensei em cursar fisioterapia, porém, o risco ronda sempre esses profissionais da área de saúde.
Ás quatro da tarde, uma cena mexeu comigo. Entre o Porto e o Farol da Barra, haviam aproximadamente trinta pessoas reunidas, o trânsito parado e os policiais agitados tentando manter a ordem. Ao lado, jovens turistas loiras choravam. No centro dos olhares, um rapaz cobria, abraçando, a metade do corpo de uma garota que chorava alto. Vi apenas uma perna branca com a carne exposta e um osso partido. Gelei, senti meu chiclete branco ficar azul e certa acidez penetrar minha língua.
Mais alto que o choro da garota, sentado no chão e recostado na parede, um homem gritava: “Não deixem ela morrer! Não deixem ela morrer!”. Era o motorista, seu ônibus havia atropelado a garota e a ambulância demorava a chegar.
Minha caminhada perdeu a graça. Corri dali para não começar a chorar e em seguida não desmaiar. Pois assim, duas pessoas precisariam ser atendidas. É preciso ter sangue frio para ver tudo aquilo e não se abalar. As minhas pernas tremem até agora, nem sei como cheguei em casa.
Deixe-me cá com o tal do jornalismo.