sábado, 28 de março de 2009

domingo, 15 de março de 2009

Fuga

Sem externar
o que me inquieta,
calo,
para tornar refúgio
do vazio.
A realidade transcendida
e alongada a outra
incandescente,
tolerável.
Fujo
mesmo reconhecendo
a vida ilusória.
Sem tormentos
e inquietações,
esqueço
minha raiz trêmula.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Carnaval como um vírus

Para Vygotsky, psicólogo russo, o meio influencia o homem. Se tratando do Carnaval, é impossível não enxergar o quanto esta festa é contagiante. Uso o termo contagiante no sentido literal da palavra: pegar por contágio. E como são muitas as pessoas que são “contagiadas” por sensações e opiniões diversas nesta época no ano, me restrinjo a apenas três grupos que se manifestam na capital baiana.
Outro dia, ouvi no ônibus as seguintes palavras de uma senhora quase idosa: “Tomara que chova nesse Carnaval”. Com esta frase, ela se encaixa no grupo dos Aborrecidos composto pelos fanáticos religiosos, os traumatizados e os eternamente estressados. Cada um com os próprios motivos, além de não gostarem de Carnaval, eles torcem para que algo ruim aconteça e estrague a alegria dos foliões; como se uma chuva, por exemplo, fosse mesmo capaz de tal façanha.
Os Guerrilheiros fazem parte do segundo grupo. Não é difícil identifica-los, eles enchem os supermercados na véspera da festa e saem carregando água e mantimentos. São sacolas e mais sacolas fartas preparadas para enfrentar a guerra. Guerrilheiros também são os lojistas, visto que são experts em armar trincheiras de madeira; tudo para proteger seus bens.
Por último, lhes apresento os Indecisos. Mesmo não gostando de Axé e convictos desde o ano anterior de que esses seriam dias de descanso, não suportam a pressão da televisão e do clima e caem no ritmo. Mas não há o que temer, afinal não existe no lado oeste de Greenwich vírus mais contagiante que o Carnaval – leia-se contagiante, pois o contagioso já é outra história...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Do Alto Bonito à Pedreira*


São tantos os lugares perdidos nesse país a que chamam de Brasil. É só pisar por aí, seguir caminhos não tão distantes para que diversos brasis dentro de uma nação sejam revelados.
Traçando o asfalto ressequido com suas crateras expostas e pedregulhos a rolar, porventura fui ao encontro do Alto Bonito. Certamente, o nome dado ao bairro, que afronto numa placa torcida condensada em azul, remete a tempos passados. Aquele deveria ser, decerto, um belo lugar.
Andando mais além, chega-se à Pedreira, grande monte donde avista-se a pequena planície da Lagoa do Arroz. Essa é uma região que sempre me instigou. Quando eu e minha família voltávamos da roça do meu pai, meu princípio de súplica voltava-se para ali. Pedia que fôssemos para casa por aquele caminho. E bastava virar a curva para o imenso despenhadeiro se apresentar a nós. Daqui a Pedreira, do outro lado o bairro do Arroz e entre os dois a Lagoa. Misto de medo e admiração que florescia em mim. Naquele lugar era tudo tão impreciso, como se de repente tiraram-lhe uma fatia de terra e na planície vazia juntaram-se as águas vindas do céu.
Imagino como seria a Maria Fumaça apitando rente ao monte e os passageiros a espreitar a paisagem pelas janelas dos vagões. Deveras, muitas lendas e histórias surgiriam naquelas épocas remotas. Quão majestosa vista!
A cidade foi crescendo e as primeiras casas foram sendo construídas, se estendendo aos outros bairros. Hoje, parece que o Alto Bonito e a Pedreira foram esquecidos pelos homens do poder. Das janelas dos poucos carros circulando por ali avista-se uma lagoa aterrada, esgoto correndo pelas ruas, crianças brincando descalças, carroças carregadas de areia, galinhas ciscando a terra, cachorros espantando as moscas e ao fundo uma música que fala de Deus; esperança, vinda de onde já nada se espera.
*(publicado no Jornal Vírus, Ano VII, Nº 34, Miguel Calmon - Ba, Janeiro/2009).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ciclos em mim

(...)

O medo me afronta
em grandes goles
esporádicos.
Medo de perder,
soltar as rédeas
da vida.
Vejo-me diante
de escolhas
que só o tempo
revelará,
caminhos
que se desfazem
em cores ocultas.

(...)

Que a sombra
de minh'alma
repouse no alento
do estado vazio
e rejubilize
na hora exata.
Além de mim
há coisas
que não param.
A vida se desagrega
e se refaz
ao final de cada ciclo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Eu, monstrinho

Há histórias, verídicas claro, que tenciono adorná-las com palavras escritas, porém passado o frescor momentâneo, a memória não é capaz de reavivá-las. Disposta tal condição, apresso-me a delatar o que me veio a acontecer por esses dias.
Foi um daqueles instantes a que chamam de lapso e que depois de ocorrido, a mente nos presenteia com mil e uma possibilidades, pensamentos. Primeiramente, me anteponho a esclarecer que não sou de dramas, mas se tratando de semelhante experiência é necessário um mínimo rabisco.
Dizem as línguas interioranas que o dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, antecipa a previsão do tempo para o Natal. Se neste dia chover, no Natal o céu estará limpo e vice-versa. Sendo assim, espero uma feliz festa natalina, pois foi o dia 8 que comportou o meu lapso.
Naquele meio-dia, eu não sonhava com os estragos que uma frigideira pode comportar nem tampouco recordava a desavença da água com a gordura. Não sou leiga se tratando de tal rixa, prefiro concordar que houve um breve descuido de minha parte. Ao ver aquela pobre frigideira e suas crias sendo queimadas não hesitei em ir socorrê-las. Desliguei a boca do fogão. Traiçoeiro fogo, verdadeiras labaredas surgiram diante dos meus olhos. O que fazer? Ali eu estava entre o fogão e o fogo tendo a pia do outro lado.
Foi receio, medo. O medo de ver as chamas se espalharem pelas outras panelas, atingir os panos e se tornar um incêndio que me fez arremessar a frigideira até a pia e ademais: abrir a torneira. Fraco pensamento dentro de um instante, impossível saber quanto tempo transcorreu naquele momento.
Já passados alguns dias, sinto em minha pele como se os pingos de gordura ainda estivessem quentes. Decerto que quando isto aconteceu não senti nada, nada mesmo, nem ardência nem dor. Eram os móveis da cozinha que me preocupavam. O armário fora atingido e todo o ambiente se envolveu de fumaça. Apenas as vozes confusas dos meus pais, que surgiram assustados, me fizeram pensar em mim mesma. Minutos depois, afrontei o espelho e vi um rosto, um braço e um pescoço condensados em vermelho. Noutro dia, acordei monstrinho pintado com bolhinhas vermelhas. Mas graças ao poder divino, não foi grave, somente a pele foi atingida, as bolhas não ardem e logo vão cicatrizar. Amanhã deixarei de ser monstrinho enquanto a vida continua frágil.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Sob o véu da Intolerância

No Brasil, é costume dizer que futebol, religião e política não se discutem, mas frequentemente estes temas norteiam alguns debates na sociedade. Dentre eles, a religião é o que a neutralidade prevalece em maior escala. As pessoas possuem sua religião ou opiniões acerca desse assunto, porém se recusam ao diálogo sobre o tema.
Justamente a falta de diálogo alimentada pelo etnocentrismo vem construindo atitudes de intolerância religiosa no decorrer da história da humanidade. (...) Tratando-se do Cristianismo e do Judaísmo, estas religiões desencadearam momentos de ódio irracional e intolerância.
Após quase 2 mil anos de conflitos, a reaproximação de judeus e cristãos somente foi iniciada com o Concílio Vaticano II(...). Este Concílio estabeleceu-se como ponto inicial de uma nova fase de diálogo e relações entre a Igreja Católica e a comunidade Religiosa Judaica. Mesmo referindo-se especifiamente ao Judaísmo, o Concílio expressou um ponto fundamental para o respeito às diversas manifestações religiosas; em vez de ressaltar as diferenças entre o Cristianismo e o Judaísmo, ele recordou o vínculo espiritual entre elas e que está espiritualmente ligado à descendência de Abraão.
O Concílio Vaticano II foi um marco e sendo a religião o universo mais prural da condição humana, é essencial a pesquisa na área das crenças religiosas. Em meio a diversidade, certamente, há associações que levam não apenas às diferenças entre elas, como também às semelhaças. Semelhanças que geralmente ficam ofuscadas por uma camada de intolerância. No caso do Judaísmo e do Cristianismo, elas tiveram a mesma origem, mas em algum momento da história se separaram e ainda assim, acreditam no mesmo Deus ou D-us, baseiam-se no mesmo livro – a Bíblia (que os judeus chamam de "Tenak" e os cristãos de "Antigo Testamento"), entre outros aspectos.
Na verdade, as diferenças religiosas em si não provocam conflitos. São as interpretações e as significações a que as diferenças são submetidas que geram atos de intolerância religiosa. Religiões, que talvez não possuam mesma origem podem mostrar-se semelhantes em valores e crenças, mudando-se apenas as formas de manifestação. Para tanto, é necessário pesquisar, conhecer e respeitar.
Que Deus, Alah, Jeová, Xangô, Maomé, Buda, Krishna ou Tupã abençoe.