sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um pouco de saudosismo

Hoje Salvador me fez lembrar minha cidade: Miguel Calmon. Choveu pela manhã e eu me banhei na chuva como há muito tempo não fazia. Foi sem querer, decerto, mas uma voz interior me fez deixar molhar o corpo livremente, sem pudor.
Agora, a tarde vem chegando e no céu nuvens pesadas se preparam, a qualquer hora vão se desfazer em milhões de gotas.
Esses dias, percebi que nessa época do ano, algumas árvores exalam um cheiro forte. É o cheiro do meu Natal. Todos os anos eu o senti sem nem mesmo notá-lo. Lá ele estava, e dessa vez as árvores resolveram me presentear. Deram-me com o cheiro a sensação de paz.
Ano acabando, chuvas de verão, férias apontando, família, Natal, Paz, Amor. Calmon, Miguel Calmon.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Breve fuga

Há uma gota de mim
em cada palavra
mal proferida.
Desejos ocultos
que me vem
e me trazem
a dor
de serem revelados.
Onde estará
essa sede
ou medo?
Em torno de mim
escondo
a parte que
não me cabe.
E a ausência
do que não
se chorou,
à meia-luz
se traduz.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Os Zumbis do sistema

Hoje eu acordei com uma imensa saudade. O rádio toca, são músicas marcantes que me fazem lembrar pessoas. E lá fora, a chuva me impede de sair. Sensação de dor que nenhum tipo de remédio pode curar, só o passar do tempo.
Há um período da vida em que ficamos cegos. Vamos como zumbis em direção ao sistema. Todos querem fazer, ser, viver o mesmo, o mesmo que aqueles ali da frente. Talvez seja falta de maturidade. Ah, e ainda há outros zumbis sem saber que os são. Mas ninguém é culpado, eu também caí nessa. E não me arrependo, seria muita ingratidão da minha parte. Esperei tanto, mas a sensação de vazio às vezes me arrebata, como agora. Poderia ter feito mais, ou melhor, ter feito menos e aproveitado mais. Não é clichê, é a pura verdade.
Porém, é chegada a hora, preciso de argumentação para dar consistência ao meu dizer. Deparo-me com essa imposição mesmo preferindo as entrelinhas. Sendo assim, desvelo o motivo da minha inquietação.
Querido leitor, estamos sempre seguindo um sistema. Como diriam os funcionalistas, todo sistema é formado por partes interligadas que desempenham sua função e blá, blá, blá. Logo cedo, quando mal aprendemos a falar, nos jogam na escola. Pronto, já fomos coagidos e permaneceremos assim por longos anos de nossa vida. É o sistema educacional, metódico, teórico, injusto e cruel. Ensinam-nos fórmulas, regras, mas nos desencorajam e ofuscam nossa liberdade. E o ápice da crueldade é atingido às vésperas do Vestibular. Se não bastar, assistimos depois os ricos invadirem as faculdades públicas. Nesse momento, os pobres estudantes já viraram zumbis.
Apenas quando tudo passa, olhamos para trás e surge esse vazio. Os amigos tomaram outro rumo, a chuva passou, o sol apareceu e é minha hora de partir.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Sangue Frio

Ultimamente, eu vinha reclamando muito do meu curso. Jornalismo é imprevisível, cansativo, não tem rotina, me transpõe para lugares diversos e me faz passar por tantas situações malucas. Esse começo de semestre foi difícil. Faltou grana, eu mal conseguia parar em casa, enfim, quase não me diverti nem cumpri todos os meus horários. Cheguei a pensar em fazer algo mais estável, por que não algum curso da área de saúde?
Mas, sinceramente, hoje mesmo esqueci de vez essa idéia. É preciso pensar muito antes de sonhar em ser médico, enfermeiro ou seguir outra profissão que precise lidar com a vida das pessoas. Tudo bem que pensei em cursar fisioterapia, porém, o risco ronda sempre esses profissionais da área de saúde.
Ás quatro da tarde, uma cena mexeu comigo. Entre o Porto e o Farol da Barra, haviam aproximadamente trinta pessoas reunidas, o trânsito parado e os policiais agitados tentando manter a ordem. Ao lado, jovens turistas loiras choravam. No centro dos olhares, um rapaz cobria, abraçando, a metade do corpo de uma garota que chorava alto. Vi apenas uma perna branca com a carne exposta e um osso partido. Gelei, senti meu chiclete branco ficar azul e certa acidez penetrar minha língua.
Mais alto que o choro da garota, sentado no chão e recostado na parede, um homem gritava: “Não deixem ela morrer! Não deixem ela morrer!”. Era o motorista, seu ônibus havia atropelado a garota e a ambulância demorava a chegar.
Minha caminhada perdeu a graça. Corri dali para não começar a chorar e em seguida não desmaiar. Pois assim, duas pessoas precisariam ser atendidas. É preciso ter sangue frio para ver tudo aquilo e não se abalar. As minhas pernas tremem até agora, nem sei como cheguei em casa.
Deixe-me cá com o tal do jornalismo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Degustar Felicidade

Hoje é um dia especial. Sei que é pelo simples fato de ser um dia. "Vacas de divinas tetas...". Um dia tranqüilo que passa sem pressa. Você pode correr para o nada, comprar frutas e tomar banho frio que ao tocar o calor do corpo, a água fria fica na temperatura ideal.
Parece que não vai chover e o Sol é um presente de Deus. Hoje eu quero sair, comer salada, me sentir leve para voar por aí. Nenhum compromisso chato agendado, só a gravação de um filme que é parte do meu prazer. Ainda dá tempo para chegar lá.
Meu Deus, hoje é sexta-feira. A casa limpa e o som perfeito. Dá vontade de dançar, abrir os braços, sentir o vento, respirar fundo, saciar a sede, aspirar o perfume das flores, vestir uma saia jeans e sorrir. Andar pulando como uma criança.
Felicidade não se explica, apenas nasce cá dentro de nós.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Carta de repentina dor

Queridos tropicalistas e amigos bossa nova. Escrevo numa quente manhã de 2008. Talvez sejam as flores escondidas que irão desabrochar, talvez seja esse meu tédio que bate aos domingos ou talvez seja apenas o despontar de agosto. A falta de vinho mexe comigo também. A vida por aqui não vai tão bem assim. E o sonho da liberdade passa como nuvens bem altas em direção ao mar. Longe de nós.
Nem todos os problemas foram solucionados. Ainda enviamos cartas, mas por e-mail. Ainda assistimos ao Fantástico, mas pela tela da TV Digital. As mulheres não precisam queimar sutiãs para serem ouvidas. E, certamente, vocês imaginam que hoje nada mais escandaliza. Afinal, novos tempos. O futuro que vocês sonharam está no prazo.
Decerto que superamos a fase Saint-Tropez, passamos pela fase hippie, aceitamos o topless, as mulheres fugiram pela janela da cozinha e não querem nem pensar em filhos, querem ter dinheiro, querem o peito duro de silicone. Vencemos uma ditadura militar, os gays abriram as portas do armário e se beijam pelas ruas.
Porém, todos os dias assassinamos milhares de vidas através do aborto, adubamos a natureza com toneladas de lixo, pessoas continuam morrendo de Aids e os homens ganham mais pelo dia no escritório, as mulheres nem tanto. Isso escandaliza. E esse querer mais e esse tédio que me embriaga sem ter vinho, vai me deixando tonta. Ano 2008, será que ainda é 2008?

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Mova-se

Naqueles dias de tédio. Tire a bicicleta das férias prolongadas ou leve o cachorro para passear. Exercite-se. Mova-se. Faz um bem danado.
Quem me fez acreditar ainda mais nisso foi um senhor que hoje pela manhã andava de skate nos Barris. Com os pés descalços, era do tipo que passava a maior parte da vida trancado em um escritório e que no final do dia só tem vontade de pisar na grama. Bem sucedido, família estruturada e em plena meia-idade.
Mas alí, não havia ternos nem gravatas. Sozinho e debaixo de uma chuva fraca, ele calmamente ensaiava alguns movimentos como se tentasse relembrar tempos áureos. Nunca é tarde. Passei e ele continuou por lá, tentando.
Hoje, o dia dele com certeza foi melhor. Acredite.