sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Degustar Felicidade

Hoje é um dia especial. Sei que é pelo simples fato de ser um dia. "Vacas de divinas tetas...". Um dia tranqüilo que passa sem pressa. Você pode correr para o nada, comprar frutas e tomar banho frio que ao tocar o calor do corpo, a água fria fica na temperatura ideal.
Parece que não vai chover e o Sol é um presente de Deus. Hoje eu quero sair, comer salada, me sentir leve para voar por aí. Nenhum compromisso chato agendado, só a gravação de um filme que é parte do meu prazer. Ainda dá tempo para chegar lá.
Meu Deus, hoje é sexta-feira. A casa limpa e o som perfeito. Dá vontade de dançar, abrir os braços, sentir o vento, respirar fundo, saciar a sede, aspirar o perfume das flores, vestir uma saia jeans e sorrir. Andar pulando como uma criança.
Felicidade não se explica, apenas nasce cá dentro de nós.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Carta de repentina dor

Queridos tropicalistas e amigos bossa nova. Escrevo numa quente manhã de 2008. Talvez sejam as flores escondidas que irão desabrochar, talvez seja esse meu tédio que bate aos domingos ou talvez seja apenas o despontar de agosto. A falta de vinho mexe comigo também. A vida por aqui não vai tão bem assim. E o sonho da liberdade passa como nuvens bem altas em direção ao mar. Longe de nós.
Nem todos os problemas foram solucionados. Ainda enviamos cartas, mas por e-mail. Ainda assistimos ao Fantástico, mas pela tela da TV Digital. As mulheres não precisam queimar sutiãs para serem ouvidas. E, certamente, vocês imaginam que hoje nada mais escandaliza. Afinal, novos tempos. O futuro que vocês sonharam está no prazo.
Decerto que superamos a fase Saint-Tropez, passamos pela fase hippie, aceitamos o topless, as mulheres fugiram pela janela da cozinha e não querem nem pensar em filhos, querem ter dinheiro, querem o peito duro de silicone. Vencemos uma ditadura militar, os gays abriram as portas do armário e se beijam pelas ruas.
Porém, todos os dias assassinamos milhares de vidas através do aborto, adubamos a natureza com toneladas de lixo, pessoas continuam morrendo de Aids e os homens ganham mais pelo dia no escritório, as mulheres nem tanto. Isso escandaliza. E esse querer mais e esse tédio que me embriaga sem ter vinho, vai me deixando tonta. Ano 2008, será que ainda é 2008?

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Mova-se

Naqueles dias de tédio. Tire a bicicleta das férias prolongadas ou leve o cachorro para passear. Exercite-se. Mova-se. Faz um bem danado.
Quem me fez acreditar ainda mais nisso foi um senhor que hoje pela manhã andava de skate nos Barris. Com os pés descalços, era do tipo que passava a maior parte da vida trancado em um escritório e que no final do dia só tem vontade de pisar na grama. Bem sucedido, família estruturada e em plena meia-idade.
Mas alí, não havia ternos nem gravatas. Sozinho e debaixo de uma chuva fraca, ele calmamente ensaiava alguns movimentos como se tentasse relembrar tempos áureos. Nunca é tarde. Passei e ele continuou por lá, tentando.
Hoje, o dia dele com certeza foi melhor. Acredite.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Medo

A vida é tão frágil que dá medo. Saber que em um segundo tudo pode mudar. Uma queda, um assalto, um tiro, um ataque fulminante. Como se o sumo da vitalidade escorresse em fios lentos e o sonho da eternidade se estilhaçasse no ar.
O homem, em geral, se adapta rapidamente às mudanças. Mas há situações em que o ser humano jamais vai se adaptar. Medo. Os jornais, a televisão, o rádio e a internet todos os dias nos fazem lembrar que amanhã poderemos ser mais um número nas estatísticas negativas.
Medo que nos circunda, como se livrar dele se a realidade não nos deixa esquecê-lo?
E há tanta coisa boa lá fora, tanto para experimentar, descobrir, viver... Melhor mesmo acreditar que não existe limite, que a vida é uma dádiva e que a realidade é melhor do que aparenta ser.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Segunda-feira

Todas as pessoas
aparentam
sentir o mesmo:
rostos pesados,
apáticos,
olhando para o infinito,
olhando para o nada.
A manhã vai caminhando
devagar.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Educação não é Gentileza

Salvador é multicultural. Cosmopolita. Gosto de viajar pela cidade descobrindo suas facetas, sua gente e sua história. Sem dúvidas, é uma experiência surpreendente observar o cenário soteropolitano pelas janelas da vida. Mas Salvador também é como qualquer outra cidade. Aquele ar de capitalismo, a desigualdade pichada nos muros, a correria e um certo tom de que nada vai mudar estampado nos rostos das pessoas.
Ora, bom mesmo é vivenciar nisso tudo gestos que nos arrancam um sorriso verdadeiro. Como o daquele senhor ajudando a senhora cega a atravessar a rua do Politeama de Baixo. Ou o mendigo da Ladeira da Montanha que compartilha sua comida escassa com uma dezena de pombos. Ou o que ocorre perto dali, na Carlos Gomes: um rapaz bem vestido que dá um copo e um prato a um doente abandonado no chão. Ou simplesmente, ouvir o bom dia do porteiro do prédio todas as manhãs.
São atos assim que podem ser chamados de Gentileza, pois são feitos de forma sincera. Essas pessoas são anônimas, rostos iguais aos outros que fazem o bem sem receber nada em troca, que respondem apenas pela própria consciência. Geralmente, as outras pessoas agem de forma educada para atender o padrão de comportamento adotado pela sociedade.
Educação não é Gentileza. Ser gentil é ser um doador constante, doador de esperança, de cuidado e de vida.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Papéis

Uma menina passou por aqui e deixou cair um papel amarelo escrito a lápis, mais na frente, outro pequeno papel branco escorrega da sua pasta e ela nada percebe. Penso em recolhê-los, mas a garota já vai virando a esquina e solas sujas de sapatos continuam a dançar para a esquerda e a direita, parece não ter fim. Logo, logo os papéis se perdem e tomam outro rumo para além da minha vista.
Será que aqueles papéis representavam algo? Seria uma informação importante? Poderiam ser números de telefones especiais, mensagens, lembretes de tarefas, trechos de um livro ou apenas palavras banais.
Deveria ser algo importante para a menina, sim. O que não tem valor é que é jogado fora. Um simples papel pode ser tão útil quanto qualquer outro objeto. Já pensou se alí estivessem os números do vencedor da loteria?
Mas agora não dá pra saber, os papéis devem estar longe, imundos e rasgados.