sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Medo

A vida é tão frágil que dá medo. Saber que em um segundo tudo pode mudar. Uma queda, um assalto, um tiro, um ataque fulminante. Como se o sumo da vitalidade escorresse em fios lentos e o sonho da eternidade se estilhaçasse no ar.
O homem, em geral, se adapta rapidamente às mudanças. Mas há situações em que o ser humano jamais vai se adaptar. Medo. Os jornais, a televisão, o rádio e a internet todos os dias nos fazem lembrar que amanhã poderemos ser mais um número nas estatísticas negativas.
Medo que nos circunda, como se livrar dele se a realidade não nos deixa esquecê-lo?
E há tanta coisa boa lá fora, tanto para experimentar, descobrir, viver... Melhor mesmo acreditar que não existe limite, que a vida é uma dádiva e que a realidade é melhor do que aparenta ser.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Segunda-feira

Todas as pessoas
aparentam
sentir o mesmo:
rostos pesados,
apáticos,
olhando para o infinito,
olhando para o nada.
A manhã vai caminhando
devagar.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Educação não é Gentileza

Salvador é multicultural. Cosmopolita. Gosto de viajar pela cidade descobrindo suas facetas, sua gente e sua história. Sem dúvidas, é uma experiência surpreendente observar o cenário soteropolitano pelas janelas da vida. Mas Salvador também é como qualquer outra cidade. Aquele ar de capitalismo, a desigualdade pichada nos muros, a correria e um certo tom de que nada vai mudar estampado nos rostos das pessoas.
Ora, bom mesmo é vivenciar nisso tudo gestos que nos arrancam um sorriso verdadeiro. Como o daquele senhor ajudando a senhora cega a atravessar a rua do Politeama de Baixo. Ou o mendigo da Ladeira da Montanha que compartilha sua comida escassa com uma dezena de pombos. Ou o que ocorre perto dali, na Carlos Gomes: um rapaz bem vestido que dá um copo e um prato a um doente abandonado no chão. Ou simplesmente, ouvir o bom dia do porteiro do prédio todas as manhãs.
São atos assim que podem ser chamados de Gentileza, pois são feitos de forma sincera. Essas pessoas são anônimas, rostos iguais aos outros que fazem o bem sem receber nada em troca, que respondem apenas pela própria consciência. Geralmente, as outras pessoas agem de forma educada para atender o padrão de comportamento adotado pela sociedade.
Educação não é Gentileza. Ser gentil é ser um doador constante, doador de esperança, de cuidado e de vida.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Papéis

Uma menina passou por aqui e deixou cair um papel amarelo escrito a lápis, mais na frente, outro pequeno papel branco escorrega da sua pasta e ela nada percebe. Penso em recolhê-los, mas a garota já vai virando a esquina e solas sujas de sapatos continuam a dançar para a esquerda e a direita, parece não ter fim. Logo, logo os papéis se perdem e tomam outro rumo para além da minha vista.
Será que aqueles papéis representavam algo? Seria uma informação importante? Poderiam ser números de telefones especiais, mensagens, lembretes de tarefas, trechos de um livro ou apenas palavras banais.
Deveria ser algo importante para a menina, sim. O que não tem valor é que é jogado fora. Um simples papel pode ser tão útil quanto qualquer outro objeto. Já pensou se alí estivessem os números do vencedor da loteria?
Mas agora não dá pra saber, os papéis devem estar longe, imundos e rasgados.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Por aí...

Sexta-feira, enquanto eu olho pela janela de um ônibus os estragos causados pela chuva, um senhor entra pela porta dianteira. Ele tem aparentemente uns 60 anos, negro, alguns cabelos brancos, roupas simples, um chapeuzinho preto na cabeça e um acordeom já bastante usado.
Meio-dia, um dia normal depois da chuva e um senhor mais normal ainda. Nada de estranho.
Seria uma volta normal para casa se esse senhor não sentasse exatamente ao meu lado, dentre tantos outros lugares vazios. E mais: começasse a cantar e a tocar o seu pequeno acordeom. A música? Não me recordo, mas lembro que não podia ser mais original; palavras simples que falavam da saudade do sertão.
As poucas pessoas do ônibus pareciam que não estavam ouvindo a música. E eu continuei olhando pela janela.



Ao final da música, ele tira o seu chapeuzinho e começa a recolher contribuições das pessoas. Minha opinião, certamente, estava errada; foi o maior número de contribuições que eu já tinha visto dentro de um ônibus. Quase todas as pessoas contribuíram de forma significativa.
Sem dúvida, elas também conseguiram naqueles poucos minutos de música esquecer o mundo que corria lá fora.
Para finalizar, na volta, quando ele passa ao meu lado, só então percebo: ele é cego!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A Capitalista Fábrica de Chocolate


O filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (com direção de Tim Burton), baseado no livro de Ronald Dahl, à primeira vista, apresenta-se como um filme infantil com ar de conto de fadas e que atrai pelas suas maravilhas visuais. Todos ficam fascinados pela fábrica de Willy Wonka (Johnny Depp), desejando ser uma das cinco crianças sortudas que encontram o bilhete dourado e que adquirem, assim, o direito de visitar suas grandiosas instalações. A lendária fábrica não era, aliás, visitada por ninguém há 15 anos. Charlie, Augustus, Mike, Veruca e Violet com os seus acompanhantes iniciam o tour pelo local e vão caindo uma por uma nas armadilhas das suas próprias personalidades, restando apenas Charlie no final.
Porém, a obra é uma ótima crítica ao capitalismo. Cada criança retrata um aspecto capitalista: Augustus e a alimentação ruim, Mike e os jogos eletrônicos, Veruca e o consumismo, Violet e o egoísmo. E Charlie é o bom garoto pobre, apegado aos valores da família; alguém que o capitalismo ainda não conseguiu transformar. “A Fantástica Fábrica de Chocolate” propõe, dessa forma, uma abordagem levemente crítica da alienação mercantilista da sociedade contemporânea.
No livro "O Manifesto do Partido Comunista", os autores Karl Marx e Engels abordam como o capitalismo criado pela burguesia transforma as relações entre as pessoas: “A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então consideradas dignas de veneração e respeito. (...) rasgou o véu de comovente sentimentalismo o que envolvia as relações familiares e as reduziu a meras relações monetárias”. O filme consegue, através da figura do garoto Charlie, levar o telespectador e o próprio Willy Wonka a uma reflexão sobre essas conseqüências do capitalismo. No final, Willy Wonka retoma a relação com o pai que não via há alguns anos. Ou seja, a proposta é tentar reabilitar a família como a base para os valores morais positivos.
A modernização e a mão-de-obra são outros aspectos abordados. A fábrica possui máquinas que ainda não foram sequer inventadas, como o elevador que se desloca para qualquer direção. Em busca de mão-de-obra barata e depois que vários concorrentes roubaram suas receitas secretas, Willy Wonka “contrata” os Umpa-Lumpas e “treina” os esquilos. Os Umpa-Lumpas são pequenas criaturas de pele bronzeada, oriundas da Loompalância e que manejam as máquinas em troca de chocolate; não é mera coincidência que todos eles sejam interpretados pelo mesmo ator. Além disso, há a analogia que para o capitalismo na busca por baixos custos e mais produção vale tudo até mesmo escravizar animais.
São inúmeras as reflexões que o filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate” pode proporcionar, mas a crítica ao capitalismo supera qualquer expectativa e o que seria apenas um filme infantil, torna-se um verdadeiro retrato do mundo moderno
.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Testemunhas

Duas e meia da madrugada. Um tiro. Acordo e procuro não pensar em nada. Fico imóvel, talvez seja apenas um pesadelo. As vozes vindas lá de baixo, porém, me revelam a realidade e espatam o meu sono: "Corre! Pega!".
É madrugada, todos dormem e eu aqui estou; testemunha de algo que ainda não sei. Não tenho vocação para jornalismo policial ou investigativo, mas nesse momento, é inevitável não querer saber o que se passa ao meu redor.
"É polícia, é polícia". _Meu Deus! - Penso logo em roubo. Estão procurando algum ladrão. Não sei porquê, mas me sinto tranquila, afinal daqui a pouco prendem o mafioso.
É, meia hora depois, eis que surge o meu pesadelo: uma sequência de tiros. Tiroteio. Dessa vez, impossível ninguém acordar. Novas testemunhas vão surgindo nas janelas dos prédios, assustadas e curiosas.
Na rua, policiais por todas as partes, nos quintais, no mato, subindo e descendo a ladeira... Armas enormes e um belo cenário de filme de ação. Até mesmo a polícia de apoio foi chamada.
E o ladrão, cadê?
De repente, outra sequência de tiros. Alguém tem coragem de ficar na janela? As testemunhas correm para os seus quartos, se atiram no chão...
Depois uns passos, uma ronda e o silêncio.
Quatro horas da madrugada, o show acaba e a platéia vai dormir sem entender o final do filme.
Só pela manhã, a televisão informa o que aconteceu:


Bandidos cercam delegacias para resgatar presos
08/05/2008 - 7h28m

*Do iBahia, com informações do Jornal da Manhã


A madrugada desta quinta-feira (8) foi de intranqüilidade para moradores dos Barris, bairro situado no centro de Salvador. O clima de tensão começou por volta das 2h30. Segundo os policiais, três carros lotados de bandidos cercaram os prédios das três delegacias que funcionam na área e tentaram uma invasão para o resgate de presos.



Os policiais de plantão reagiram, fechando as portas e atirando. No tiroteio com os bandidos que permaneceram do lado de fora, um policial levou um tiro de raspão. Um outro bandido foi morto e um preso que tentou fugir acabou recapturado. Enquanto isso, os presos que estão nas celas que ficam no porão do complexo iniciaram uma rebelião e começaram a tocar fogo nas celas.
A situação só foi normalizada quando chegou o reforço do Batalhão de Choque e do Corpo de Bombeiros que continuam no local. O clima ainda é tenso e os presos estão sendo fortemente vigiados. A polícia de choque deve entrar nas celas daqui a pouco para fazer uma revista.

Ninguém está livre de nada, de repente, tudo pode acontecer.