sábado, 19 de junho de 2010

Lembranças

Impossível não lembrar nestes primeiros anos de juventude adulta daqueles anos em que íamos – eu e meu pai – buscarmos leite nas várzeas. Às vezes, entre uma parada e outra da caminhonete improvisada, encontrávamos um riacho no caminho. Como eu gostava de banhar-me em águas doces! A ponte do rio do Arroz, o rio da Barragem do França, o riacho lento que corre entre a areia do Umbuzeiro...

Antes disso, até os meus dois ou três anos, sempre passávamos – eu, meus pais, meu irmão e minhas tias – temporadas na roça, não lembro em quais datas, mas minhas lembranças são marcadas pela TV em preto e branco aquecida pela bateria do carro. Energia elétrica era um luxo distante. Na volta do curto exílio, o rádio sintonizado na Rádio Globo AM era o que nos embalava até a chegada na cidade.

Lembro que havia também a grota, onde minha avó tinha plantações. Naquela parte mais úmida e verde da região, subíamos os morros vermelhos a pé e levantávamos sem reclamar a cada tropeço nos tocos. Até hoje dá para sentir o cheiro de jaca e manga espalhado pelo ar. Mais tarde, meu pai comprou um pedaço grande de terra por lá. Era uma alegria ir à grota em cima da caminhonete sentindo o vento bater no rosto e olhando os montes altivos formados de pedra. No regresso para casa, o carro estava carregado de frutas e lenha.

Assim, entre frutas, lenha, sabores, sorrisos e currais, decorei todos os rabiscos feitos no adobe sem perceber o tempo passar. Subindo e descendo morros, eu via a mudança na vegetação de lugares tão próximos, sentia o cheiro do leite, aprendia a pisar na terra molhada, notava o canto dos pássaros livres e achava que o mundo era tão pequenino quanto a palma da minha mão.

1 comentários:

Lucas Franco disse...

A vida no interior parece ser fascinante, e com relatos tão bem escritos como o seu, eswueci que nunca pude viver essa magia :)