23 de fevereiro - terça-feira depois do Carnaval
Ao sentir uma ânsia de vômito com a testa colada no balcão, o corpo curvado e os olhos serrados, pude retomar os sentidos que perdera durante alguns minutos. Duas pessoas estranhas me amparavam a cada lado e uma voz masculina sentada em minha frente fazia perguntas simples, minha consciência, porém, não era capaz de responde-las.
Apesar do medo, sabia onde estava e mesmo confusa, pude perceber que duas dezenas de pessoas enchiam o lugar. O homem só conseguiu de mim uma resposta: o meu endereço. O restante ele encontrou no cartão de passagem de ônibus ainda guardado no bolso traseiro da calça. Foi dentro do coletivo onde enxerguei o instante longo.
Tudo poderia transcorrer como sempre há de ser. O despertador atrasado, o café preso na garganta, o frio depois do banho rápido, o sol batendo no ponto, buzinas e, enfim, a faculdade após cinquenta minutos percorrendo a cidade. Mas bastou-me atravessar a catraca para o inesperado acontecer.
Já refiz o trajeto inúmeras vezes na tentativa de recontar aos mais chegados o que aconteceu e alguns detalhes acabam se dissipando. Cronologicamente, acordei com uma dor terrível na coxa esquerda. A mesma dor que surge nos momentos vespertinos do estágio. Neste dia, acentuou-se a sensação de agulhas enfiadas no músculo, cada passo era cortante e atravessar a rua haveria de ser seguido de longas paradas para recuperar o fôlego. Me senti acuada por subir no ônibus com dificuldade; a dor aumentou e dali em diante planos misturaram-se a lembranças.
Primeiro, a visão turva e esverdeada, o corpo atônito que senta no banco e a respiração ofegante. Tudo confuso e infundado, meu corpo apresentava reações aleatórias. Pensei apenas em uma possibilidade: alguma veia da perna estourou e atingiu o coração. Desci do veículo e sentada na calçada com o dedo do pé escorrendo de sangue, um hospital era o lugar onde eu mais desejava estar.
A visão cada vez mais turva, a respiração cada vez mais ofegante, os carros na pista sem parar, nem mesmo um táxi era visível, todos os veículos tinham o mesmo tom esverdeado.
O diagnóstico, que viria horas depois, foi tão reconfortante quanto à voz perguntando: “Moça, você está passando mal?”. Poderiam me levar para qualquer lugar. Com o tropeço que me fez sentar, o desconforto era visível. Soube depois que os meus olhos não paravam de mexer. Se não fosse Deus, eu não pararia em frente a um posto de saúde, se não fossem aquelas mãos protetoras, eu não conseguiria atravessar a pista.
Em poucos minutos, a enfermeira checou a pressão e a glicose; ambas normais. O casal de meia idade foi embora apenas quando parti para uma clínica. O que eu não poderia imaginar era o que médico iria me dizer. Meu corpo teve todas as reações de fato, eu que me tornei escrava da minha própria mente. O médico nem triscou em mim e nem esperou que eu terminasse de listar os sintomas. Segundo ele, essas síndromes e pânicos são mais comuns do que se imagina.
domingo, 14 de março de 2010
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3 comentários:
Que susto! Quase pergunto o que foi antes de terminar de ler!
e eu também.... Alexandre
As vezes, o medo de sofrer é maior do que o próprio sofrimento.
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