quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O show

Por tantas vezes
quis estar de mãos atadas
na areia da praia,
sem choro, sem palavras,
apenas a olhar.
Sentir o reflexo da lua
e as ondas a quebrar no mar,
dividindo a brisa,
compartilhando o beijo.
Queira encontrar uma face opaca
na multidão de vozes
e um toque singelo
em vibrantes melodias.
Mas na explosão de sons,
nenhum olhar disperso,
nenhum sussurro.
A volta ao vazio.

sábado, 29 de agosto de 2009

Curiosidade futebolística em terras tupinambás

A vida inteira gostei de esportes e das Letras, mas nunca havia tencionado uni-las numa mesma jogada. Dessa vez, uma característica peculiar dos baianos me envolveu de tal modo que resolvi calçar de vez as chuteiras. Ou melhor, foram os destoantes gostos futebolísticos desses povos que habitam as terras tupinambás, aimorés e paiaiás que me escalaram.
Desde quando finquei meus pés por essas paradas soteropolitanas, tenho reparado a pouca influência dos times da capital lá pelas bandas do São Francisco, quebrando nos morros da Chapada, passando pelo sertão até o oeste do estado.
Logo que uma cara provinciana é avistada nos círculos sociais da baía de todos os santos, ela é prontamente intimada: você é Bahia ou Vitória, afro? Sem dúvida, seria mais sensato se indagassem: você é Vasco ou Flamengo, meu peixe? Ou então, você é Botafogo ou Fluminense?
Eu vascaína que sou, não vou me aconchegar a um certo Leão amigo de um Urubu que voa lá pelos ares cariocas. Prefiro o tricolor de Aço, com todo o respeito ao rubro-negro baiano. Até porque os quase 80 mil cruzmaltinos que encheram o Maracanã me fazem lembrar os 110 mil torcedores que balançaram a Fonte Nova. Mas confesso que no mata-mata mesmo, o coração vascaíno não falha nunca.
A televisão é a grande responsável, ora mocinha, ora vilã, pela influência carioca no interior do estado. E também é sabido por todos que os aparelhos de tv não conseguem captar perfeitamente os sinas das emissoras estando a léguas de distância. É chiado, é fita preta cortando a tela, é a imagem chocalhando; nem esponja de aço na ponta da antena em pleno último capítulo da novela e final de campeonato para resolver o problema. Por isso que a antena parabólica domina os lares interioranos.
Sem contar a tradição ainda forte de ouvir a rádio Globo Am do Rio nos aparelhos Motorádio ou Motobrás na freqüência 1220. Valdir Amaral, Jorge Kuri e o comentarista Mario Viana fazem uma baita saudade para a geração 70. Todos os lances de Roberto Dinamite e Zico foram acompanhados pelos ouvidos colados no rádio. E minha geração, nem tão distante assim, viu Edmundo e Romário incendiarem as tardes de domingo. Os olhos não piscavam em frente à tv; e lá se vão dez anos daquela Libertadores contra o Palmeiras.
Pena que hoje são os times paulistas que dominam o futebol brasileiro, meu irmão que o diga. Quedê Bahia, quedê Vitória? Tem lugar na fila para mais uns quatro? Devolvam o meu Vasco.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Compassos

Parte I

Retomar as cores,
degustar os versos,
mergulhar nos livros,
ter um pouco de paz,
paz de espírito,
resgatar o gosto,
ter amor,
ter alegria,
devolver o tédio,
ter mais inspiração.

Parte II

Além do dia,
viagem no tempo,
descobrindo as faces
talvez seja verdade
a cruzada do destino.
Medo,
nenhum vacilo,
nenhum erro,
ser o melhor de mim.
Arrepio,
força divina.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Quadrado

Aqui onde eu posso ver somente as minhas dores e pegar o cheiro que exala do meu corpo, há barulho estático e gritos esparsos.
Ainda que movimentos horizontais e elevados possam me expulsar e alguém lá fora possa me avistar, transloucada, melhor saber que essas sombras ele não reconhece.
Será uma apaixonada escrevendo cartas de amor? Segundo os solitários à espera de reflexos pela fechadura, talvez sim.
Em alguns lugares vejo cadeiras, mais abaixo o vazio e para além de mim, o lixo. Restos acumulados de um quadrado de loucos. A loucura cética, a loucura surda, a loucura insana e a loucura real em cada ponto perfeitamente dividido.
Eu prefiro o silêncio.
O riso dos infelizes me incomoda, o riso sórdido e sarcaz tanto quanto a presença negativa. Pertinente. Por isso que ouso esperar, ainda não é a hora de subir.
Eu prefiro a sensatez.
Ao dividir espaços, continuamente, encosta-se no melhor e no pior dos egos. Entre o contraste, a desordem e a falsidade, melhor calar; sem embates nem tormentos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

São João

Céu estrelado e colorido; fagulhas secas e compridas riscando-o e bandeirolas imensas a enfeitá-lo. É assim que me encontro ao luar nas interioranas noites do santo festeiro. Pura alegria e a sintonia em pares a cada toque de zabumba.

Como
o som triângulo
ríspido
e compassado
que me perpassa
inusitado.

domingo, 10 de maio de 2009

Cristais

Me sinto mergulhada
em nuvens brancas.
Um grito.
Não tenho medo,
é Deus.
Há uma luz sendo refletida
no horizonte,
por alguns segundos fez-se cristalina
e logo se desfaz,
volta a ser opaca.
Uma freada.
Talvez seja o objeto escuro
que passou por mim
ou a mancha avermelhada
que ficou para trás.
Quase noite
e apenas um feixe de luz
refletido no fragmento de nuvem branca.
Chove a alguns quilômetros daqui.
Uma cortina de cristais
descendo de dois sulcos no céu.
Nuvens pálidas e pesadas
desabando sobre as montanhas.
Fico gélida e enregelada.
As árvores balançam por aqui,
vejo pessoas estranhas
caminhando lentamente
e a chuva a cair mais fraca,
pousada no mesmo lugar.
Um instante.
Paro.
O vidro se cobriu de rabiscos
frios, molhados e agudos.
Tudo envolveu-se por aqui.
Desespero no asfalto molhado,
clarões correndo rapidamente,
eucaliptos balançando suavemente.
A chuva que toca o vidro em cristais.

domingo, 19 de abril de 2009

Ser tímido é ser discreto?

Timidez é algo que as pessoas sempre relacionaram à minha imagem. Um estereótipo comum, normal, aceitável e saudável. Saudável até certo ponto, diga-se. Quando ser tímido interfere na vida social e profissional é diferente, ela passa a não ser tão saudável assim.
É justamente o social e o profissional o ponto em que quero chegar. Nunca tive problemas em conhecer pessoas e me relacionar com elas, tampouco ser tímida interferiu na minha escolha de profissão. Claro que a maioria das pessoas - principalmente aquelas que não me conhecem ou me conheceram em um momento de calma e/ou cansaço - indagam: mas você faz jornalismo sendo tímida?
Primeiramente, nem todos os jornalistas, acredito que a maioria, não são pessoas tão falantes. Comunicativos decerto que são, pois ser comunicativo é conseguir se expressar bem ao ponto de ser entendido pelo outro, o que não significa necessariamente falar muito. Além disso, jornalismo é uma área ampla, cheia de possibilidades; um editor, por exemplo, sendo tímido, ele não encontrará a mesma dificuldade se fosse um repórter.
Outro aspecto é o meu prazer em conversar com as pessoas, principalmente as humildes. O contato individual me leva não apenas a conversar e sim criar um vínculo sincero com elas. Permitir-se é fundamental, conhecer, entender o outro e outros contextos é uma forma maravilhosa de conhecimento. Quem convive comigo no âmbito profissional/educativo também sabe que falar em público não me inquieta tanto. Se o meu objetivo é informar ou entender algo, não vejo nenhum temor nisso.
Assim, a timidez, tema dessa abordagem, é um comportamento que pode causar até mesmo alterações fisiológicas. Porém, no dia-a-dia ela é geralmente confundida com discrição, acredito que seja o meu caso. Por trás de alguém discreto há possibilidades diversas, o outro é como você, carregado de idéias e sentimentos esperando o momento certo de serem expressos.

sábado, 28 de março de 2009

domingo, 15 de março de 2009

Fuga

Sem externar
o que me inquieta,
calo,
para tornar refúgio
do vazio.
A realidade transcendida
e alongada a outra
incandescente,
tolerável.
Fujo
mesmo reconhecendo
a vida ilusória.
Sem tormentos
e inquietações,
esqueço
minha raiz trêmula.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Carnaval como um vírus

Para Vygotsky, psicólogo russo, o meio influencia o homem. Se tratando do Carnaval, é impossível não enxergar o quanto esta festa é contagiante. Uso o termo contagiante no sentido literal da palavra: pegar por contágio. E como são muitas as pessoas que são “contagiadas” por sensações e opiniões diversas nesta época no ano, me restrinjo a apenas três grupos que se manifestam na capital baiana.
Outro dia, ouvi no ônibus as seguintes palavras de uma senhora quase idosa: “Tomara que chova nesse Carnaval”. Com esta frase, ela se encaixa no grupo dos Aborrecidos composto pelos fanáticos religiosos, os traumatizados e os eternamente estressados. Cada um com os próprios motivos, além de não gostarem de Carnaval, eles torcem para que algo ruim aconteça e estrague a alegria dos foliões; como se uma chuva, por exemplo, fosse mesmo capaz de tal façanha.
Os Guerrilheiros fazem parte do segundo grupo. Não é difícil identifica-los, eles enchem os supermercados na véspera da festa e saem carregando água e mantimentos. São sacolas e mais sacolas fartas preparadas para enfrentar a guerra. Guerrilheiros também são os lojistas, visto que são experts em armar trincheiras de madeira; tudo para proteger seus bens.
Por último, lhes apresento os Indecisos. Mesmo não gostando de Axé e convictos desde o ano anterior de que esses seriam dias de descanso, não suportam a pressão da televisão e do clima e caem no ritmo. Mas não há o que temer, afinal não existe no lado oeste de Greenwich vírus mais contagiante que o Carnaval – leia-se contagiante, pois o contagioso já é outra história...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Do Alto Bonito à Pedreira*


São tantos os lugares perdidos nesse país a que chamam de Brasil. É só pisar por aí, seguir caminhos não tão distantes para que diversos brasis dentro de uma nação sejam revelados.
Traçando o asfalto ressequido com suas crateras expostas e pedregulhos a rolar, porventura fui ao encontro do Alto Bonito. Certamente, o nome dado ao bairro, que afronto numa placa torcida condensada em azul, remete a tempos passados. Aquele deveria ser, decerto, um belo lugar.
Andando mais além, chega-se à Pedreira, grande monte donde avista-se a pequena planície da Lagoa do Arroz. Essa é uma região que sempre me instigou. Quando eu e minha família voltávamos da roça do meu pai, meu princípio de súplica voltava-se para ali. Pedia que fôssemos para casa por aquele caminho. E bastava virar a curva para o imenso despenhadeiro se apresentar a nós. Daqui a Pedreira, do outro lado o bairro do Arroz e entre os dois a Lagoa. Misto de medo e admiração que florescia em mim. Naquele lugar era tudo tão impreciso, como se de repente tiraram-lhe uma fatia de terra e na planície vazia juntaram-se as águas vindas do céu.
Imagino como seria a Maria Fumaça apitando rente ao monte e os passageiros a espreitar a paisagem pelas janelas dos vagões. Deveras, muitas lendas e histórias surgiriam naquelas épocas remotas. Quão majestosa vista!
A cidade foi crescendo e as primeiras casas foram sendo construídas, se estendendo aos outros bairros. Hoje, parece que o Alto Bonito e a Pedreira foram esquecidos pelos homens do poder. Das janelas dos poucos carros circulando por ali avista-se uma lagoa aterrada, esgoto correndo pelas ruas, crianças brincando descalças, carroças carregadas de areia, galinhas ciscando a terra, cachorros espantando as moscas e ao fundo uma música que fala de Deus; esperança, vinda de onde já nada se espera.
*(publicado no Jornal Vírus, Ano VII, Nº 34, Miguel Calmon - Ba, Janeiro/2009).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ciclos em mim

(...)

O medo me afronta
em grandes goles
esporádicos.
Medo de perder,
soltar as rédeas
da vida.
Vejo-me diante
de escolhas
que só o tempo
revelará,
caminhos
que se desfazem
em cores ocultas.

(...)

Que a sombra
de minh'alma
repouse no alento
do estado vazio
e rejubilize
na hora exata.
Além de mim
há coisas
que não param.
A vida se desagrega
e se refaz
ao final de cada ciclo.